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domingo, 18 de setembro de 2011

Geografia : O lugar como possibilidade de transformação


O lugar como possibilidade de trasformação


Arlindo da Silva Viana ( 1 )
Bruno Maia Halley  ( 2 )

Hoje certamente mais importante que a consciência do lugar é a consciência do mundo, obtida através do lugar. (Milton Santos).

RESUMO

Este ensaio traduz algumas inquietações acerca da categoria “lugar” enquanto enclave de resistência ao processo de globalização. Para tal, dialogou-se com as idéias de Paulo Freire e Milton Santos acerca do processo de conscientização e de resistência ao processo em curso. Nesse sentido, constituiu-se objetivo deste ensaio discutir o “lugar” como espaço imediato do vivido, do conhecer e ser reconhecido, das relações de vizinhança que criam laços profundos de identidade, habitante-habitante, habitante-lugar, possibilitando a emergência do processo de conscientização nesses lugares.

  A metodologia abarcou a (re) leitura e discussão de estudos desenvolvidos por Freire, Santos e Carlos, afora outros. O que nos fez concluir, a priori, as inquietações apresentadas neste ensaio, entre as quais, o desafio que o processo de conscientização coletiva enfrentará através do lugar na busca da consciência do mundo.

Palavras Chave: Globalização - Lugar – Conscientização.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

   No presente trabalho, procurar-se (mesmo que de forma sumária) tecer algumas considerações a respeito do “lugar” como enclave de resistência ao processo da globalização perversa, conforme destaca Santos (2001). Para tanto, a principio discutisse o “lugar” no seio da globalização, para em seguida, analisa-lo como uma possibilidade ao processo de conscientização, uma vez que ele é entendido como espaço destinado a vida, onde se configuram relações cotidianas mais próximas (parentesco, compadrio, vizinhança) que criam laços profundos de identidade com o lugar. Tendo em vista, que o processo de globalização tende a alcançar todos os espaços, pode-se imaginar, todavia, outro cenário, a partir do “lugar” como espaço da solidariedade que, na concepção freireana, representa o primeiro passo ao processo de conscientização. Por fim, destaca-se os desafios e utopias do “lugar” face a globalização e, por conseguinte, o papel dos geógrafos-educadores e geógrafas-educadoras nesse processo.

O ‘LUGAR’ NO MUNDO GLOBALIZADO

Com os albores do século XXI, a humanidade presencia com maior intensidade, mais um período de organização sócio-econômica da história, denominado por Santos (1996)


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1 Aluno do curso de licenciatura em Geografia da UFPE e sócio do Centro Paulo Freire.
2 Bacharel em Geografia Bacharelado pela UFPE e Associado Colaborador do Núcleo de Estudos Josué de Castro da Fundação Universidade Estadual de Alagoas, Arapiraca – AL.




Como período técnico-científico-informacional.

Este período de acordo com o autor caracteriza-se, sobretudo, pelos avanços científicos, principalmente no que concerne ao campo da biotecnologia (a exemplo da clonagem, dos transgênicos, fertilização artificial, entre outros); como também pelas conquistas técnico-informacionais, haja vista o surgimento de algumas ferramentas (celulares, computadores portáteis, satélites e etc) que se tornaram imprescindíveis ao mundo atual da globalização. Aqui entendida como o elemento diferenciador desse período, em razão de trata-se de um processo de dimensões mais amplas, envolvendo ‘nações e nacionalidades, regimes políticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, economias e sociedades, culturas e civilizações’ (IANNI, 1999, p. 11).

   É assim, a globalização, ‘um novo ciclo de produção e processo civilizatório de alcance mundial’ (IANNI, Op. Cit., p. 11) que, no capitalismo se expande de forma extensiva e intensiva, apoiando-se em novas tecnologias, no livre mercado, na competição de produtos e serviços, na divisão internacional do trabalho, nas corporações transnacionais e no consumismo desenfreado fruto da valorização exacerbada da ideologia do ter mais em detrimento do ser mais ( 3 )
  
  A propósito das empresas ou corporações é importante ressaltar que as mesmas, segundo Corrêa (1996, p. 213), se constituem, após a Segunda Guerra Mundial, no mais ‘importante agente da reorganização espacial capitalista’, cujas ações implicaram,  na escala mundial, em uma ‘nova divisão internacional do trabalho’ (COHEN, 1981), geradora de uma ‘especialização sincrônica’ (LIPIETZ, 1977) que envolve a produção simultânea em diversos lugares das diferentes partes componentes de um mesmo produto, e no conseqüente comércio internacional entre subsidiárias de uma mesma corporação (Op. Cit., p. 213).
    Afora isso, deve-se também observar que as corporações desencadearam o aparecimento de verdadeiras ‘cidades globais’ ou grandes metrópoles, ‘onde estão as sedes das empresas que atuam como centros de gestão econômica e territorial de amplas áreas do globo’ (CORRÊA, Op. Cit., p. 213).

    Assim, a metrópole torna-se palco de estréia e difusão das metamorfoses processadas pela globalização, ‘bem como o lugar de onde se vê, de forma privilegiada, o mundo urbano’ (CARLOs, 2004, p. 69).
   Porém, cabe destacar que as metamorfoses em curso que tendem a homogeneizar os gostos, costumes, tradições, línguas e formas de consumo, não afetam a metrópole na sua totalidade, mas sim fragmentos do todo e com diferentes intensidades. Ciente disso, Carlos (1996, p. 20) propõe uma discussão dos fragmentos da metrópole, a partir do lugar entendido como a ‘porção do espaço apropriável para a vida – apropriada através do corpo – dos sentidos – dos passos de seus moradores, é o bairro, é a praça, é a rua...’:

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3 O que difere do pensamento de Freire (1987) que segundo o qual, a vocação ontológica do homem é ser-mais, no sentido da busca de sua humanização.



     Deste modo, o lugar constitui a base da reprodução da vida, podendo ser compreendido a partir da tríade habitante-identidade-lugar estabelecida no plano do vivido, no ato de conhecer e ser reconhecido (CARLOS, Op. Cit., p.20). É o caso do bairro, que segundo Carlos (Op. Cit., p. 21) corresponde ao espaço imediato da vida das relações cotidianas mais finas – as relações de vizinhança, o ir às compras, o caminhar pelas ruas, o encontro dos conhecidos, o jogo de bola, as brincadeiras, o percurso reconhecido de uma prática vivida/reconhecida em pequenos atos corriqueiros e aparentemente sem sentido que criam laços profundos de identidade, habitante-habitante, habitante-lugar.
    No entanto, o lugar compreendido nesta dimensão, também é alvo dos efeitos da globalização, uma vez que sendo o mesmo um fragmento do espaço faz parte de uma totalidade sócio-espacial. O lugar é articulado e determinado por essa totalidade, e é nesta ligação que se obtêm expressão do mundial no local, sem, todavia anular suas particularidades.
    Dessa maneira, busca-se na seqüência desvendar e analisar a categoria do lugar através das suas particularidades, o que nos remete a pensá-lo como um instrumento de conscientização e também como utopia a sociedade multicultural.


O LUGAR NO PROCESSO DE CONSCIENTIZAÇÃO: UM INÉDITO VIÁVEL


   Inicialmente, cabe aqui ressaltar que apesar da nova ordem que tende a alcançar todos os espaços, pode-se imaginar, todavia, outro cenário constituído por verdadeiros enclaves de resistência, em que a realização plena da vida é capaz de aumentar a capacidade de servi à plenitude dos seres humanos (SANTOS, 2001, p.112).    Desta forma, acredita-se que as possibilidades de resistência e transformação dependem de soluções a serem buscadas localmente, cujo papel do lugar é determinante como um espaço vivido que permita a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro.

   Trilhando nessa direção, Santos (Op. Cit., p. 131) lembra que umas das tendências do contexto atual é a produção da carência e da escassez numa parcela considerável da sociedade que não tem acesso a serviços, produtos e etc.    Essa experiência de carência e escassez constitui um aspecto primordial na percepção da situação de cada individuo e da coletividade, possibilitando o conhecimento de sua situação concreta e de seu espaço vivido (o lugar).
   Nessa perspectiva, o pensamento freireano fornece categorias importantes para a compreensão dessa situação no processo de globalização. A exemplo da conscientização, que segundo Freire (19XX, p. 26), implica em ultrapassar a esfera espontânea de apreensão da realidade, para atingir a esfera crítica da realidade.
   Nesse sentido, o processo de conscientização desenvolve-se a partir de uma aproximação com a realidade, com o espaço vivido, onde os sujeitos possam objetivar a realidade em escalas maiores: regional, nacional e global. Ainda a propósito da conscientização e suas relações com a realidade concreta, Freire (1981, p.117) esclarece que ‘a compreensão [...] e sua prática se encontra, portanto, em sua ligação direta com a  compreensão que se tenha da vivência em suas relações com o mundo’. Assim, conclui-se que para haver o processo de conscientização é necessário que os homens e mulheres se percebam como seres existentes no mundo e com o mundo.


   Porém é preciso que os mesmos tomem esse espaço vivido, ou seja, esta realidade cotidiana como objeto de sua admiração, de seu desvelar, o que resulta na tentativa de penetrar em sua essência, perceber as desigualdades existentes, as carências e o mais importante, na tentativa de propor uma transformação da mesma.    Pois, acredita-se que apenas a aproximação da realidade não implica em mudança, é necessário que se perceba e conheça as relações dialéticas, haja vista que o ato de desvelamento do mundo na concepção de Freire não permite dicotomia entre a objetividade e subjetividade, ação e reflexão, teoria e prática.    Daí porquê o aspecto importante no processo conscientizador, o conhecimento da realidade concreta (sócio-econômica-política), não pôde ser percebida como algo que é, ou seja, estático, mas como algo que esta sendo, num processo contínuo e dinâmico.
   
    Deste modo, o processo de conscientização se concretiza na ação e reflexão, ou como prefere Freire na ‘práxis’ que, possibilita o ato de denunciar as situações opressoras ou desumanizantes para anunciar uma situação humanizadora. Este ato, conforme Freire (Op. Cit., p. 26), impõe ‘que os homens e mulheres assumam o papel de sujeitos históricos que fazem e refazem o mundo’.

   Outro aspecto importante que confronta a globalização em curso está na cultura popular, na diversidade cultural encontrada nos mais diversos lugares que refletem numa resistência diante da cultura de massas em vigor, que por sua vez, busca homogeneizar e impor condições a cultura popular através de um ‘mercado cego’, indiferente ao patrimônio cultural, que expande-se de forma variada. Entretanto, essa expansão que ora se apresenta mais ou menos eficaz em certos lugares e sociedades, jamais é completa, em virtude da persistência da cultura preexistente (SANTOS, Op. Cit., p.143-144).


OS DESAFIOS E UTOPIAS DO LUGAR NO MUNDO.


   A partir das considerações elaboradas, buscou-se até aqui, desvendar as possibilidades que o lugar possui enquanto enclave ao processo em curso, e quanto o processo de conscientização é fundamental para a concretização desses enclaves.    Entretanto, a partir de agora, pretende-se em outra perspectiva, evidenciar a Geografia como instrumento que pode contribuir de forma significativa ao processo coletivo da conscientização.   Por trata-se de uma ciência que estuda as relações entre a sociedade e o espaço, ou melhor, a forma como a sociedade organiza o espaço terrestre, a Geografia, conforme destaca Andrade (1992, p. 12) ‘é uma ciência eminentemente política, no sentido Aristotélico do termo, devendo indicar caminhos a sociedade, nas formas de utilização da natureza’.
  
   Dessa forma, a educação geográfica não pode se eximir do seu papel. Qual seja, o de estudar, analisar e explicar o espaço produzido e reproduzido pelos seres humanos. Enquanto disciplina de ensino, possibilitar aos educandos que se percebam como agentes participantes do espaço que estuda, onde os fenômenos que ali ocorrem são resultados da vida e do trabalho dos homens e mulheres (LANA, 2002, p. 13).
   
    Nessa perspectiva, os geógrafos-educadores e geógrafas-educadoras estão diante de um desafio que, ao mesmo tempo, é um compromisso histórico, social e pedagógico.
    Desafio por vivenciar o processo excludente da globalização, e compromisso, porque devem, os educadores envolvidos no processo educativo, buscar trabalhar pela humanização dos sujeitos. A esse respeito, adverte Freire (1979, p. 18-19) que este compromisso com a humanização do homem, que implica uma responsabilidade histórica, não pode realizar-se através do palavrório, nem de nenhuma outra forma de fuga do mundo, da realidade concreta, onde se encontram os homens concretos.
   O compromisso, próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, de cujas “águas” os homens verdadeiramente comprometidos ficam “molhados”, ensopados. Somente assim o compromisso é verdadeiro. Portanto, o desafio é grande, mas não impossível. É preciso reavivar que os educadores e educadoras assumam seu papel diante da sociedade, e que a Geografia, juntamente com outras ciências de visão crítica, contribuam almejando um mundo mais ético, solidário e humano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

   Neste ensaio buscou-se, a priori, estabelecer conexões entre o global e o local sob a égide do processo da globalização.   Pois o mesmo, conforme já fora mencionado, expressa um processo de amplas dimensões envolvendo fluxo de capital, mercadorias, pessoas, culturas sobretudo tecnologia e informação.
   No entanto, ao mesmo tempo em que o espaço é alvo deste processo, o mesmo abre perspectiva para outro cenário constituído por verdadeiros enclaves de resistência, em que a realização plena da vida é capaz de aumentar a capacidade de servi à plenitude dos seres humanos.   Portanto, acredita-se que as possibilidades de resistência e transformação dependem de soluções a serem buscadas localmente, cujo papel do lugar é determinante como um espaço vivido que permite a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. Nessa perspectiva, o pensamento freireano, no que se refere a suas considerações construídas sobre a conscientização, torna-se fundamental para compreensão do mundo atual.


REFERÊNCIAS


ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia Ciência da Sociedade. 2 ed.; São Paulo: Atlas, 1992.
CARLOS, Ana Fani A. O Lugar no/do Mundo. São Paulo: Hucitec, 1996.
CARLOS, Ana Fani A O espaço Urbano. São Paulo: Contexto, 2004.
CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
FREIRE, Paulo. Política e Educação. 3 ed. São Paulo: Cortez, 1997.
FREIRE, Paulo.Educação e Mudança. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
FREIRE, Paulo.Pedagogia de Oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1987.
FREIRE, Paulo.Conscientização: Teoria e Prática da Libertação – uma Introdução ao Pensamento de Paulo Freire. 3 ed. São Paulo: Centauro, 1980.
IANNI, Octavio. A Era do Globalismo. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
IANNI, Octavio. A sociedade global. 4 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
SANTOS, Milton. Por uma Outra Globalização. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. São Paulo: Hucitec, 1996.



Trabalho apresentado no
V Colóquio Internacional Paulo Freire – Recife, 19 a 22-setembro 2005

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